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Sono do bebé. O seu filho não dorme a noite toda?

É normal nos primeiros meses de vida… Além de os bebés recém-nascidos não distinguirem o dia da noite, têm ciclos de sono diferentes. O sono do bebé não é igual ao dos adultos e vai evoluindo ao longo do tempo.

Para todos, o sono é um pilar fundamental do bem-estar, interferindo diretamente na saúde física e mental. E se para os adultos esta é uma função essencial do organismo, para os bebés, a par da alimentação, o sono assume um papel determinante no seu desenvolvimento.

“É uma necessidade básica, com impacto muito grande na saúde, quer a nível cognitivo, emocional e do desenvolvimento físico”, diz Teresa Sousa, psicóloga, com formação em Psicologia do Sono na infância, na Clínica Lusíadas Faro. “Influencia vários aspetos do desenvolvimento do bebé nesta que é uma fase tão importante do seu desenvolvimento, marcado por crescimento rápido, a todos níveis. 

É por isso que, desde o nascimento, os pais devem ter muita atenção ao sono. ”Bebés com grande privação de sono podem ter um crescimento comprometido porque sabemos hoje que a hormona que potencia o desenvolvimento está mais ativa durante o sono. Por outro lado, acrescenta a especialista, “investigações recentes indicam que o sono é fundamental para um sistema imunitário fortalecido, reagindo melhor a infeções.”

A realidade é que nesta fase da vida, tudo é impactado pelo sono: “As capacidades psicomotoras, por exemplo, também podem ser prejudicadas pela privação de sono, assim como a componente alimentar — os bebés muito cansados têm menor interesse por comer, sobretudo na altura da introdução alimentar.” 

No entanto, é importante compreender que, no caso dos bebés, uma boa rotina de sono não é sinónimo de uma noite inteira a dormir. Os ciclos de sono dos bebés são diferentes e vão evoluindo ao longo do tempo, assemelhando-se cada vez mais ao dos adultos, conforme as suas capacidades se forem desenvolvendo.

A evolução do sono do bebé

No primeiro mês  

Nesta chegada ao mundo extra-uterino, a rotina do bebé, ainda muito sonolento, assenta em duas ações: comer e dormir — geralmente, não está acordado mais de uma hora seguida. “Se assim não for, poderá precisar de ajuda”, destaca a especialista. 

E, contrariamente ao padrão dos adultos, o tempo acordado e de sono do bebé não se divide entre dia e noite. “Nos primeiros tempos de vida, o bebé nem distingue o dia da noite, tendo nestas duas alturas diferentes do dia um comportamento muito semelhante, fazendo períodos de sono curtos”, explica. 

A partir dos dois meses 

Nesta fase, o bebé já passa mais tempo acordado.  “Por volta do segundo mês, o bebé começa a fazer a distinção entre o dia e a noite, podendo, por isso, começar a dormir mais horas de seguida durante a noite”, explica Teresa Sousa, que acrescenta que passa a estar mais desperto entre as sestas. 

A partir do quarto mês 

No quarto mês, é comum dar-se uma grande alteração no comportamento do bebé. “Já consegue estar uma hora e meia acordado entre sestas, que é algo que um bebé recém-nascido não consegue fazer sem começar a ficar agitado e muito cansado.”

Aqui, mais atento ao mundo que o rodeia, o bebé já quer interagir mais e quer estar mais tempo acordado durante o dia, começando a consolidar o sono noturno. “Muitas vezes, já temos bebés que dormem muitas horas durante a noite — entre 6 a 10 horas, sem necessidade de intervenção dos pais.” 

A partir do sexto mês

Por esta altura, muitos bebés já conseguem dormir a noite toda. “Não significa que o bebé durma sempre de forma seguida ou profunda — nem nós somos assim”, realça a especialista. Até porque, com seis meses, os bebés ainda têm ciclos de sono mais curtos: os dos adultos duram cerca de uma hora e meia e, ao 6.º mês, os bebés ainda não ultrapassam cerca de uma hora.

Teresa Sousa chama, então, a atenção para a ocorrência de ligeiros despertares, até nos bebés que aparentemente dormem a noite toda. A diferença, face aos que acordam, é que “conseguem controlar mais facilmente esses despertares.” Mexem-se, fazem ruído, mas não significa que estejam de facto acordados. “Estão numa fase de transição de fase de sono ou de ciclo de sono.”

Outro fator determinante para a capacidade de dormir a noite toda prende-se com as alterações no padrão alimentar. Com seis meses, os bebés já não têm a necessidade de se alimentar tanto durante a noite. “Ao sexto mês, a hormona leptina, que regula o apetite, entra em ação de forma mais eficaz, começando a inibir a fome durante o sono, tal como acontece nos adultos. Como esta componente hormonal está mais estável, o bebé consegue dormir mais horas durante a noite sem precisar de se alimentar.”

A partir do primeiro ano de vida 

Após o primeiro ano de vida, consolida-se o sono da noite. “Desde que durante o dia o bebé esteja a alimentar-se bem e desde que o seu crescimento esteja a ser saudável, o bebé já tem um sono mais contínuo.”

O choro do bebé

Sem outras ferramentas, o choro é a forma que o bebé encontra para comunicar com o mundo. “O choro pode significar ‘tenho fome’, ‘estou desconfortável e preciso que me mudem a fralda’ ou até ‘preciso de companhia’”, exemplifica a especialista. “Na altura do nascimento dos dentes, pode significar mais despertares durante a noite e mais choro.”

Pode também querer dizer, realça, preciso de ajuda para dormir. “Muitas vezes, os pais acham que o bebé não quer dormir, mas na realidade o choro pode significar que o bebé está muito cansado. A privação de sono e a exaustão nos bebés prejudica a capacidade de adormecer de forma tranquila.”

Por poder significar várias coisas, é importante escutar o choro do bebé, tentando decifrá-lo. “Cada bebé é único. Precisamos de escutar e refletir, sem agir imediatamente”, considera. “Muitas vezes, estamos em piloto automático e reagimos logo. Mas podemos não estar a reagir da forma adequada. Por exemplo: os bebés podem estar a choramingar e a dormir em simultâneo, porque há alturas em que, pela velocidade do crescimento, têm um sono mais ativo. Mas, passados uns segundos, voltam a dormir mais tranquilamente, como se nada fosse. Intervir na sequência deste choro pode despertá-lo novamente.”

Lidar com insegurança

O choro é um ruído que aflige, sobretudo porque o associamos à ocorrência de maus eventos, ligados a sofrimento e tristeza. Mas, como já vimos, no caso dos bebés, trata-se de uma ferramenta de comunicação. 

Face a um bebé que chore muito, é comum os pais confrontarem-se com alguns sentimentos de insegurança face aos cuidados que estão a prestar.  “Os pais precisam de se sentir apoiados. Atualmente, podem ter acesso a muita informação, mas sentem-se muitos sozinhos nestas situações. Já não vivemos em comunidade, vivemos mais isolados. Muitas vezes, é o primeiro bebé daquela família e isto faz com que os pais se sintam mais inseguros porque tiveram pouco contacto com crianças.”

Chorar não é necessariamente caso de alarme. O importante é que os pais estejam devidamente informados e que tenham consciência de que cada bebé é único e, por isso, é preciso ir testando para compreender as suas mensagens codificadas no choro. 

“O bebé precisa que façamos algumas experiências. Os pais devem, calmamente, ir experimentando, com a consciência de que ninguém sabe de tudo à primeira e de que é impossível responder da maneira mais adequada de forma imediata”, aconselha Teresa Sousa.
Para colmatar o cansaço inerente a um padrão de sono que é diferente, Teresa Sousa diz que é muito importante pedir apoio quando necessário para descansar, referindo ainda a importância do trabalho em equipa entre o casal, quando a estrutura familiar assim o permite. 

“É importante dividir a noite ao meio (um dos elementos fica com metade da noite e o outro com a outra). E também é essencial procurar ajuda profissional para perceber o comportamento do bebé e confirmar se aquilo que estão a fazer é adequado, quando há dúvidas ou problemas que os pais não estão a conseguir resolver sozinhos”, diz. 

Não há fórmulas mágicas. Mas a informação funciona como reforço positivo: “O mais acertado para todas as situações, muitas vezes não existe. No entanto, quando nos sentimos mais informados sentimo-nos mais seguros.”

A Consulta do Sono dá resposta a perturbações de sono que possam surgir em todas as idades — incluindo no caso dos bebés e primeiros anos de vida. “Analisamos em conjunto com os pais as dificuldades que possam existir, fornecendo a informação necessária e adequada, quer no que respeita à rotina ou ambiente de sono, passando ainda pelas estratégias que podem ser adotadas para adormecer e/ou ajudar o bebé a dormir melhor, tendo em conta a fase do seu desenvolvimento.”

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